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A decomposição de um gigante: o grupo PRISA e a América Latina

Nos últimos sete anos, o principal grupo de comunicação espanhol, que havia se convertido em um gigante das indústrias culturais na América Latina, atravessa o pior momento de sua história.

 Patricia Marenghi* e Marina Hernández Prieto**/ Espanha, julho 2014

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Em julho de 2007, falecia Jesús de Polanco aos 77 anos; três anos depois morria também seu amigo e cofundador da Santillana, Pancho Pérez González. Nestes sete anos, o principal grupo de comunicação espanhol, que havia se convertido em um gigante das indústrias culturais na América Latina, atravessa o pior momento de sua historia.

PRISA nasce como a diversificação multimídia da editora Santillana, o projeto com o qual Pancho Pérez González e Jesús de Polanco haviam conseguido uma importante base no negócio de livros na Espanha e América Latina dos anos sessenta e setenta. Quando numerosos círculos de empresários se lançam a criar novos diários para a transição política do franquismo, Pérez e Polanco se integram no periódico ‘El País’, que sai às ruas em maio de 1976. Progressivamente, Polanco e Pérez vão se fazendo com pequenos pacotes de ações até se converterem nos sócios de referência do diário, e dele chegam ao rádio com a compra da maioria do capital da ‘Rede SER’, o grupo radiofônico mais importante da Espanha em 1985, e depois com a obtenção de uma das três licenças de televisão privada em 1990, aliado com o grupo francês Canal Plus.

A expansão de licenças de frequência modulada consolidará a liderança do grupo no mercado radiofônico espanhol durante os anos noventa, e ao mesmo tempo seu posicionamento em televisão paga – basicamente inexistente na Espanha até 1990 – lhe permite chegar ao mercado de direitos desportivos e cinematográficos, e pôr em marcha um multicanal via satélite, Canal Satélite Digital, que terminará fusionando com o outro grande operador para constituir o atual Canal Plus, o maior operador de televisão paga na Espanha com seu bouquet de satélites.

A licença de televisão privada – usada nos primeiros anos para oferecer a televisão paga, replicando o modelo francês – passa a converter-se em um canal comercial, o ‘Cuatro’, no fim de 2005. Então, a expansão do grupo chegou a seu auge tanto na Espanha como na América Latina – como detalharemos em seguida: o atraso do cabo possibilitou ao Canal Plus liderar o mercado pago; a diversificação de formatos radiofônicos na Espanha permitiu consolidar a hegemonia do grupo no setor; El País se mantém como o diário de maior difusão; o Grupo Santillana e seus selos editoriais compartilham a liderança do mercado editorial com Planeta e, no contexto geral, o crescimento da economia espanhola proporciona um cenário de investimento publicitário mais que solvente para os interesses da companhia. Para aquele momento, o valor da sociedade – se nos atemos ao preço das ações – é muito alto e as perspectivas, em uma fase ainda de crescimento da economia espanhola, são boas.

 Atividade do PRISA em alguns mercados culturais na Espanha (2014)

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Elaboração própria.

É nesta fase expansiva do grupo, entre o fim dos anos noventa e a primeira metade dos anos 2000, quando o PRISA se lança a uma forte internacionalização, que consolida as operações internacionais de sua divisão editorial. A expansão do PRISA na América Latina se produz em várias frentes. A primeira e mais importante á a que está nas suas origens: o PRISA não teria seu tamanho atual sem a editora Santillana, e Santillana não seria nada sem sua expansão latino-americana nos anos sessenta e setenta.

Em 2000, firma-se um primeiro acordo entre o PRISA e o Grupo Nación (Costa Rica) para criar o Grupo Latino de Radiodifusão Costa Rica; em 2001 compra 50% do Sistema Radiópolis (México) da Televisa, e ambas empresas tomam a decisão de explorá-lo conjuntamente; finalmente, em 2002 o PRISA estabelece uma aliança estratégica com o Valores Bavaria (Colômbia) para integrar o Caracol Radio e Grupo Latino de Radio (GLR). Este último movimento dá ao conglomerado presença no Chile, Costa Rica, Panamá, México e Estados Unidos, e a sociedade – inicialmente composta parcialmente com o Bavaria – passa ao controle total do PRISA em 2004. A esses ativos se soma, também em 2004, uma emissora de onda média em Los Angeles, a 690 XTRA, comprada do Clear Channel. Com ela, o PRISA começa a oferecer conteúdo em espanhol a emissoras por todos os Estados Unidos através da companhia GLR Networks, e a gerir diretamente a W Radio 690XTRA de Los Ángeles e a Caracol WSUA 1260AM de Miami. Nesse mesmo ano, tem início a expansão do grupo pelo cone sul, primeiro com a compra de duas importantes emissoras do mercado de rádio argentino, Continental e Radio Estéreo, pertencentes à Telefônica, e em 2007 com a compra da Iberoamerican Radio Chile, o principal operador do mercado de rádio privada no Chile, pertencente ao grupo venezuelano Cisneros.

É nesse mesmo contexto temporal no qual o PRISA se dirige também ao mercado cultural brasileiro. Por um lado, com a aquisição da Editora Moderna em 2001 e a compra de 75% da Editora Objetiva em 2005; por outro, com a compra da holding portuguesa Media Capital, em 2007 – na qual já havia entrado parcialmente em 2005 –, da qual se esperava que servisse de ponte para os investimentos do grupo no Brasil. A estes movimentos se deve somar a operação falida de associação com o empresário boliviano Raúl Garáfulic, com quem o PRISA entrou no canal de televisão ATB, nos diários El Nuevo Día e La Razón, e no portal Bolivia.com. Em 2003, as desavenças entre os dois sócios chegam ao extremo e o grupo espanhol apresenta um processo ante a Corte Internacional de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional acusando a família Garáfulic de apropriar-se de mais de 2 milhões de dólares do grupo destinados ao pagamento de créditos. As disputas entre ambos terminaram com a saída de Garáfulic das sociedades, e a posterior venda destas, em 2009, ao grupo Akaishi Investments, com sede em Barcelona.

Em resumo,  durante os últimos quinze anos o PRISA tem encontrado na expansão internacional de sua divisão radiofônica um eficaz complemento à atividade transnacional de seus selos editoriais. O resultado deste processo de transnacionalização é uma dependência cada vez maior do grupo de seus lucros internacionais, que se estima terem passado de 487,87 milhões de euros em 2007 aos 746,15 de 2013. Enquanto, por exemplo, a Espanha detinha, estima-se, 80% dos lucros do PRISA em 2007, em 2013 essa porcentagem é de somente 66%. O Brasil já é o segundo mercado em importância para o grupo (com 8,5% do faturamento total de 2013), seguido por Portugal (6,5%) e México (4,8%). A divisão editorial obtém 80% de seus lucros da América Latina, e a radiofônica 44%. Não é estranho que seu primeiro executivo, Juan Luis Cebrián, tenha dito ante a última reunião geral de acionistas que o PRISA é mais “um grupo iberoamericano que espanhol”.

Comparação dos lucros por mercado do PRISA (2007-2014)

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Fonte: elaboração própria sobre dados de PRISA e CNMV.

Pesem estes dados, a situação econômica do grupo se deteriorou gravemente nos últimos anos, até o ponto de que sua dívida bancária supera nos dias de hoje os três mil milhões de euros.

A razão para essa cifra deve ser buscada no financiamento de suas operações de expansão, através de duas grandes operações de crédito que somam mais de 3.500 milhões de euros:

Um empréstimo consorciado por 1.600 milhões de euros, firmado com 40 entidades financeiras em 19 de maio de 2006, cujo vencimento estava fixado para 19 de março de 2014.

Um empréstimo-ponte, firmado inicialmente em 20 de dezembro de 2007 com HSBC ao qual logo se incorporaram outras cinco entidades (La Caixa, BNP, Banesto, Caja Madrid e Natixis), por 1.840 milhões de euros, destinados à aquisição pública da totalidade do capital de sua filial Sogecable, dona do operador de televisão paga Canal Plus e da licença de televisão comercial Cuatro. O empréstimo vence inicialmente em 15 de janeiro de 2015, com possibilidade de prorrogação de 9 meses.

Na segunda metade da década passada, recém adquirida a monumental dívida para continuar com seu processo expansivo, o grupo começa a sofrer a mudança no contexto de seu mercado de referência, o espanhol. Por um lado, pese que o governo do PSOE presidido por José Luis Rodríguez Zapatero autorizou em 2005 a conversão da licença do sinal terrestre do Canal Plus para a emissão em aberto, as relações com o executivo não foram especialmente boas. De fato, um grupo empresarial próximo ao então presidente promoveu várias iniciativas de comunicação que prejudicaram os meios do PRISA no mercado, particularmente o canal de televisão comercial aberta La Sexta, concedido em 2006, que resultou particularmente agressivo no mercado dos direitos de futebol. Um dos sócios de referência da La Sexta, a produtora Mediapro, pôs em funcionamento o canal pago GolTV para a transmissão da liga de futebol da primeira divisão, o que não só reduziu o mercado do Canal Plus como também o submeteu a fortes tensões econômicas como consequência da renegociação de contratos com os clubes de futebol e dos calotes no pagamento dos direitos que o PRISA denunciou. Junto a este aumento da competição, o grupo sofreu a fortíssima retração do mercado publicitário na Espanha, como consequência da crise. Segundo os dados do Infoadex, o investimento em meios convencionais passou em uma década dos 5.600 milhões em 2003, a um teto de 7.985 em 2007 e, finalmente, a 4.630 em 2012: o descenso acumulado nos últimos 5 anos é de nada menos que de 49,7% no investimento em meios convencionais.

O falecimento de Jesús de Polanco em 2007 coincidiu temporalmente com o princípio  da crise econômica, na qual o PRISA enfrenta um complicadíssimo contexto econômico, que o obriga a projetar uma estratégia de encerramentos e alienações de ativos, demissão de empregados e busca de investidores. As vendas de 8,1% do Prisa Radio ao 3i Group PLC (2008, 7,8 milhões de euros), das sedes do El País, e da SER em Madrid e Barcelona (2008, 315 milhões de euros) e depois da  Sogecable à WP Carey (2010, 80 milhões de euros), de 25% da Santillana Ediciones à DLJ South American Partners (2009, 213 milhões de euros), de 35% de Media Capital à Ongoing Strategy (2009), a venda também do Cuatro à Telecinco em troca de 18,3% do capital do Mediaset Espanha (2009) que o PRISA já começou a liquidar (3,69% foi vendido em 2014 por 120 milhões de euros), e do Canal Plus à Telefónica e Mediaset (em 2009 e 2014, por cerca de 1.700 milhões de euros) e, por último, a venda da divisão de edições gerais do grupo à Penguin Random House (2014, 72 milhões de euros) descrevem a lenta sangria que o grupo tem confrontando, desfazendo-se de alguns de seus principais ativos para fazer liquidações parciais dos empréstimos, enquanto conseguia progressivos adiamentos do vencimento de suas dívidas com os bancos credores. Um acordo com o fundo de investimento Liberty conseguiu em 2010 a fusão das duas companhias e um salva-vidas de 650 milhões de euros. Ao mesmo tempo, aprovava um plano de demissões de 18% de sua planta em todo o mundo e conhecidos nomes abandonavam o diário El País, entre eles Maruja Torres, Javier Valenzuela, Karmentxu Marín, Santos Juliá, Ramón Lobo ou Enric González. Em meio ao descenso de vendas de periódicos e à queda do investimento publicitário, a crise do El País conduziu também, em 2014, à substituição de seu diretor e da maior parte de seus responsáveis editoriais.

Estaria, portanto, o PRISA em fase de desmantelamento? Seus proprietários negam. Os herdeiros de Jesús de Polanco seguem controlando a holding e, de fato, ante à incerteza que gerou o falecimento do fundador, em agosto de 2007 seus filhos assinaram um compromisso de manter o consórcio de sua participação no grupo – que havia sido firmada em 2003 através da sociedade Rucandio – e não se desfazer das ações da sociedade nos dez anos seguintes ao falecimento do fundador – quer dizer, até 21 de julho de 2017.

Composição acionista do grupo PRISA (2013)

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Elaboração própria sobre dados do Informe do Governo Corporativo 2013 e feitos relevantes da CNMV.

A presença dos Polanco no PRISA está, portanto, garantida durante alguns anos, ainda que venha a ser cada vez menor. A operação de fusão com o Liberty realizada em 2010 implicava na conversão de ações – denominadas de classe B, sem voto, em troca de 650 milhões de euros – que ao final de maio de 2014 concluíam seu prazo de transformação em ações ordinárias da sociedade. Como resultado, a expansão do capital social diluirá a propriedade dos Polanco muito abaixo da situação atual, a qual se refere o último informe do Governo Corporativo, que reproduzimos no gráfico. E, enquanto isso, os principais ativos seguem sendo objeto de liquidação para dar conta dos mais de 3.000 milhões da dívida pendente. A metade poderia ser cancelada quando for desembolsada a compra do Canal Plus pela Telefônica (750 milhões de euros), e pondo no mercado as ações que o grupo recebeu pela venda do Cuatro à Telecinco (cujo valor ronda hoje os 600 milhões de euros). Para completar o pagamento, o PRISA necessitaria desfazer-se de alguns de seus ativos chave: o grupo editorial Santillana, parte de seu negócio radiofônico espanhol ou latinoamericano, ou o diário El País. As perspectivas de crescimento na Espanha ou América Latina podem ser determinantes nesta decisão. Enquanto vazou para a imprensa a intenção do PRISA de comprar do fundo de investimento 3i seu 8,14% na sua divisão radiofônica, na última reunião de acionistas, Cebrián assegurava que “o PRISA vai concentrar seus esforços no negócio de educação e de informação, com especial foco de crescimento na América Latina”.

É difícil, portanto, prever os próximos movimentos de um grupo cuja gestão mudará, provavelmente, devido à reestruturação definitiva do seu quadro acionista em junho de 2014, que terá ainda que liquidar ativos para fazer frente aos empréstimos pendentes e cujas perspectivas dependem fortemente da evolução das economias espanhola, portuguesa e de grande parte dos países latinoamericanos.

* Patricia Marenghi, Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Salamanca.

* * Marina Hernández Prieto, Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Salamanca.

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