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A implantação do rádio digital na Europa: notas sobre uma transição intermitente

“Desde então, o DAB vem mostrando um desenvolvimento lento e incerto, que tem diversas explicações. Desde considerações políticas e econômicas até empecilhos mais técnicos, como a falta de um campo de receptores adequado, o preço de comercialização ou a falta de canais e de produtos.”

Fátima Ramos del Cano*/ Agosto de 2015

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Para falar de rádio digital, é necessário falar do processo por meio do qual o sinal analógico será convertido no digital. É uma transformação que a Comissão Europeia considera essencial para alcançar a plena convergência tecnológica desse meio de comunicação, ao mesmo tempo em que reconhece que sua complexidade deriva de implicações sociais e econômicas que vão além da pura migração técnica.

A digitalização do rádio traz uma série de vantagens, entre as quais estão a união da informação sonora a outros serviços e modalidades de acesso e interatividade (como a radiodifusão de imagens ou o som multicanal), um maior número de emissoras no mesmo espectro, uma melhor qualidade de som e uma oferta mais ampla que a atual. A partir desses benefícios, se supõe que o rádio passará por um período de transição com tantas exigências quanto as aplicadas à conversão à TV digital, com um cronograma de desconexões acompanhado de uma forte campanha informativa dirigida ao grande público – que, além de tudo, terá que adquirir novos equipamentos preparados para receber este tipo de sinal.

Eureka 147: a origem do padrão digital radiofônico na Europa

O processo de digitalização do rádio conta com diversos padrões tecnológicos (DAB, DAR, DBS, ISDB ou IBOC), mas podemos destacar quatro modelos principais: a Radiodifusão Sonora Digital (Digital Audio Broadcasting – DAB) da Europa, o In-Band On-Channel (IBOC ou HD Radio) dos Estados Unidos, o Serviço Integrado de Transmissão Digital Terrestre (Integrated Services Digital Broadcasting – ISDB) do Japão e o Digital Radio Mondiale (DRM), que tem alcance mundial.

No caso da Europa, foi em 1986 que o DAB começou sua saga, seguindo os parâmetros do Projeto Eureka 147, impulsado pela União Europeia de Radiodifusão (UER/EBU). Nove anos depois, o European Telecommunications Standards Institute (ETSI) adotou o DAB como sistema único para o continente.

Desde então, o DAB vem mostrando um desenvolvimento lento e incerto, que tem diversas explicações. Desde considerações políticas e econômicas até empecilhos mais técnicos, como a falta de um campo de receptores adequado, o preço de comercialização ou a falta de canais e de produtos. Outros estudos também apontam a grande competição com as rádios online como uma das principais causas para a plena implementação do DAB estar emperrada. O relatório “Public radio and new media platforms”, publicado pela União Europeia de Radiodifusão (UER/EBU), mostra o rádio por internet como a segunda modalidade de consumo desse meio entre o público europeu em geral. E também encontramos autores como Mark Ramsey, Richard Rudin ou Juan Carlos Valencia Rincón (2013), que questionam se realmente existe uma demanda ou uma real necessidade social para a implantação do DAB.

A desigualdade na transição ao rádio digital na Europa

Apesar do pouco prestígio, o rádio digital é uma realidade no mercado radiofônico europeu.

Atualmente – e de acordo com dados da organização World DMB Forum – são 15 os países europeus (Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Irlanda, Itália, Malta, Noruega, Países Baixos, Polônia, Reino Unido, República Checa, Suíça e Suécia) que já contam com serviços regulares de rádio digital, nove os que estão em fase de testes e/ou em processo de regulação (Áustria, Croácia, Eslovênia, Hungria, Lituânia, Letônia, Mônaco, Cidade do Vaticano e Romênia) e oito aqueles que simplesmente mostram algum interesse na implementação do sistema (Eslováquia, Estônia, Finlândia, Grécia, Portugal, Sérvia, Turquia e Ucrânia).

Hoje, são sete os países que lideram o processo de implementação do DAB na Europa: Noruega, Suíça, Reino Unido, Alemanha, Dinamarca, Países Baixos e Itália.

Em 16 de abril de 2015, a Noruega se tornou o primeiro país do mundo a anunciar o fim das transmissões analógicas. O sinal DAB já alcança uma cobertura de 99,5% no país e seus receptores têm 58% de penetração nos lares noruegueses. A migração digital começará em 11 de janeiro de 2017 e será completada em 13 de dezembro desse mesmo ano.

Porém, foi o Reino Unido o primeiro a estabelecer formalmente uma data para o fim do rádio FM. Na chamada “Lei da Economia Digital” de 2010, o ano de 2015 foi determinado como limite – mesmo que depois o prazo tenha sido estendido, até que em 2013 o governo britânico o postergou até que uma série de critérios sejam cumpridos. Entre estes está atingir uma cota de 50% de audiência digital, e que a força da cobertura DAB seja comparável à do sistema atual, analógico. Em qualquer dos casos, algumas das peças-chave da estratégia migratória do país são o aferimento constante realizado sobre as audiências digitais por meio da empresa Radio Joint Audience Research (RAJAR), ou a concessão da gestão e da comercialização de todas as frequências a uma mesma empresa, a Digital One.

Em seguida, Noruega, Suécia e Suíça foram as próximas a oficializar a intenção de adotar a norma DAB como protocolo oficial para suas difusões radiofônicas. Todas as estações suíças já transmitem por meio de DAB+ e a cobertura atinge percentuais de até 99%. O salto definitivo ao digital está previsto para algum momento entre 2020 e 2024. Por outro lado, mesmo que tenha marcado 2022 como data limite em seu cronograma rumo ao espectro digital, em junho de 2015 o Ministério da Cultura sueco anunciou uma intenção de não prosseguir com o calendário proposto.

Na Itália, a cobertura digital chega a 68%. O país é um daqueles em que a publicidade teve maior importância na evolução das transmissões radiofônicas em modo digital. Já no caso dos Países Baixos, o lançamento dos receptores digitais é considerado como o de maior sucesso na Europa, graças ao alto número de vendas em um país que acaba de completar a segunda etapa de seu plano migratório à DAB+. A Dinamarca, que conta com uma das mais altas quantidades de usuários da DAB per capta em todo o mundo (40% da população do país já tem acesso a esta tecnologia), estabeleceu 2019 como data final, mesmo que sujeita a diversos condicionantes, enquanto a Alemanha trabalha com 2025 como prazo limite.

“O rádio digital alcançou um ponto de inflexão na Europa”, era o que afirmava Patrick Hannon, presidente da WorldDMB, ao final do WorldDMB European Automotive Event, realizado em maio deste ano, em Bruxelas. Contudo, assim como indica o jornalista e consultor em Rádio e Comunicação Gorka Zumeta, a implantação do rádio digital poderia ser acelerada se todos os Estados chegassem a uma decisão unânime e, claro, se houvesse uma postura mais decidida por parte da própria Comissão Europeia que, neste momento, acaba de ignorar o meio radiofônico em suas 16 novas medidas para chegar ao Mercado Digital Único.

* Professora do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Jaume I de Castellón (UJI).

 

Links relacionados:

O rádio digital provocará o apagão do rádio FM na Noruega em 2017 (Artigo em espanhol)

Política do Ministério para o rádio digital recebe críticas (Artigo em português)

Duas semanas para passar da radiodifusão analógica para a digital em grande parte do mundo (Artigo em espanhol)