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Avanços e tropeços da TV digital terrestre na Colômbia

María Paula Martínez*. Colombia, mayo 2014.

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O processo de transição para a televisão digital terrestre (TDT) completou cinco anos na Colômbia, e somente em 2014 é um tema que está saindo do terreno do técnico e localizando-se no imaginário dos espectadores colombianos. Isso graças ao fato de que se começou a vender os aparelhos televisores e os conversores digitais nas principais lojas do país, e principalmente porque os canais privados RCN e Caracol anunciaram que a totalidade das partidas do Mundial de Futebol da FIFA Brasil 2014 serão transmitidas pelo novo sinal digital em dois canais novos de TDT.

Esta notícia colocou a TDT na boca de todos por várias razões: a competição com a TV paga, o investimento em equipamento e a cobertura do sinal digital nas diferentes zonas do país. Até o momento, as transmissões televisivas desta e outras copas como a UEFA Champions League eram exclusivas da televisão privada e fechada. Através do sinal analógico, somente se podiam ver as partidas principais e para as demais era necessário assinar um serviço de TV paga. Por conta disso, desde finais de 2013 abundam os anúncios de empresas como DirecTV e Claro que, habituadas à exclusividade, fazem promoções de pacotes futebolísticos a preços competitivos. Agora, com a recente notícia de 100% das partidas grátis pela TDT, começaram os debates de acesso à televisão, a transição, os equipamentos e os custos. Segundo o artigo que publicou a revista Semana: “com isto busca-se que os colombianos entendam o valor da televisão gratuita e em alta definição e se rompa o mito de que se tem de pagar para ver televisão, que é um serviço público”.

A dois meses do início do mundial de futebol, o sinal digital tem cobertura em 0,89% do país, segundo estabelece a página oficial que o Governo tem sobre o tema. Desde setembro de 2008, quando se anunciou que a Colômbia migraria para a televisão digital, o processo avançou de maneira muito lenta devido a vários fatores, como a inexperiência do país em implantação de redes, a liquidação da entidade reguladora de televisão CNTV, a criação de uma nova agência que se encarregaria do processo, a impossibilidade de licitar um terceiro canal privado, entre outros.

Finalmente, em meados de junho de 2013, a empresa Rohde & Schwarz ganhou a licitação para a implementação da fase 1 da rede de televisão digital pública com a qual o Governo pretende massificar o serviço em 2014. Depois de que a licitação foi declarada vazia em duas ocasiões por falta de ofertantes que cumprissem com os requisitos, se anunciou que esta filial Colômbia-Espanha da Rohde & Schwarz ganhou o contrato de 15,8 milhões de dólares com o que se instalaram 14 novas estações nas principais cidades beneficiando 50% da população colombiana e os canais públicos: Señal Colombia, Señal Institucional, Teleantioquía, Telecafé, Telecaribe, Telepacífico e TRO.

A estes aspectos técnicos que tem a ver com as redes, as antenas e a distribuição da programação nos quais trabalham em conjunto a Autoridade Nacional de Televisão (ANTV), a Agência Nacional de Espectro (ANE) e o Ministério de Tecnologias da Informação e da Comunicação (MINTIC), somam-se os temas dos custos para os telespectadores e dos conteúdos.

Durante vários anos houve incerteza sobre o preço que teria que assumir o consumidor tendo em conta que a Colômbia adotou o padrão de televisão europeu DVB-T2 e que nenhum dos países vizinhos compartilha essa decisão. Em 2010, ano em que se iniciaram as transmissões de teste do sinal digital, especulou-se que o preço dos conversores (set-up boxes) seria de 40 dólares aproximadamente e da possibilidade de subsídios ou distribuição gratuita destas aos estratos socioeconômicos mais baixos, como aconteceu na Argentina.

Contudo, hoje a realidade é que para que um colombiano veja a programação TDT, ele deve comprar um dos dois conversores disponíveis no mercado que custam 80 e 100 dólares, um preço muito alto se for levado em conta que o salário mínimo vigente em 2014 para a Colômbia é de cerca de 310 dólares, ou deve comprar um novo televisor. Frente a isso, o senador conservador Jorge Pedraza Gutiérrez apresentou um projeto de lei no final de 2013 no qual propunha subsidiar total ou parcialmente os conversores de televisão digital terrestre para os estratos mais baixos. Ao que o Ministro de Tecnologias da Informação e das Comunicações colombiano, Diego Molano Vega, respondeu: “se o Congresso nos põe obrigações de distribuir decodificadores, diga-nos de onde tirar o dinheiro”.

Em relação à compra de novos televisores, sabe-se que sua venda começou em setembro de 2013 com preços que vão desde os 800 até 4.000 dólares ou mais, dependendo de outros aspectos como o tamanho da tela, a qualidade etc. Contudo, em março de 2014 a Superintendência de Indústria e Comércio anunciou o início do processo contra 16 fabricantes de TV e lojas de departamento entre os quais estão Sony, LG, Ripley, Falabella, Éxito, Cencosud e La Polar, por não informar aos consumidores se os televisores que vendem incluem ou não o sintonizador por meio de adesivo, caixa diferenciada ou outros tipos de distintivos e por não dar informação relativo ao novo serviço de TDT. O processo ainda está em curso e se for comprovado que existiu violação do estatuto do consumidor cada uma destas empresas terá que pagar uma multa de 620 mil dólares.

Assim, concluído o primeiro trimestre do ano de 2014, a TDT avança com tropeços na Colômbia. Pela primeira vez desde 2008 o tema está na boca dos telespectadores que têm uma coisa clara: para ver a TDT é preciso pagar uma adaptação técnica. O debate sobre os conteúdos e as vantagens da TDT ainda não aconteceram e o Governo segue sem se pronunciar sobre a abertura de novos canais, a diversidade dos conteúdos, a inclusão de novos participantes etc. Enquanto isso, acontece que 8 de cada 10 colombianos seguem desfrutando da TV paga, que chega em sinal analógico mas se vangloria de ser digital.

*Jornalista, professora da Universidade dos Andes (Bogotá) e criadora de mediosencolombia.com

 

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